Pacote agita setor imobiliário, mas juro ainda inibe mercado
Por Marcelo Mota
SÃO PAULO (Reuters) - O recente alvoroço no setor imobiliário alimenta o sonho da casa própria, mas as medidas do governo para estimular a construção civil, segundo especialistas do setor, irão beneficiar mais diretamente apenas uma camada da sociedade.
Ações como a eliminação da obrigatoriedade da Taxa Referencial como indexador de financiamentos reduzem o juro cobrado em linhas prefixadas e devem ajudar a ampliar o acesso a famílias com renda mensal não tão alta quanto as exigidas até então, em torno de 4 mil reais.
Mas o corte ainda vai deixar de fora a grande massa, que poderia patrocinar o salto na indústria da construção civil, segundo Celso Petrucci, diretor do Secovi-SP, entidade que reúne mais de 40 mil empresas do setor imobiliário em São Paulo.
"O pacote atinge muito o que a gente chama de habitação de mercado", afirmou Petrucci. "Não existe possibilidade de 'boom' agora. A gente sente que vai haver um crescimento sustentado por alguns anos."
Mais do que as medidas anunciadas, o setor espera a queda do juro básico e a afirmação da estrutura jurídica criada nos últimos meses para ver o crédito imobiliário deslanchar como mercado. Nessa estrutura está principalmente a alienação fiduciária, que permite a recuperação rápida do imóvel em caso de inadimplência.
"As medidas estão feitas, o arcabouço está em ordem, só que ele precisa se transformar em realidade na prática do Judiciário", disse o diretor de crédito imobiliário do Itaú, Luiz Antonio Rodrigues.
Ele frisou que só a queda do juro básico, atualmente em 14,25 por cento ao ano, tem o poder de democratizar de fato o crédito para a compra da casa própria. Análises feitas pelo Itaú mostraram que, em uma operação de taxa prefixada, uma queda de quatro pontos percentuais no juro aumentou em 40 por cento o volume de negócios.
"Poderia dizer que a cada ponto, cresce 10 por cento", afirmou. Ainda na quarta-feira, após o anúncio do pacote, ele disse que a retirada da TR permitiria a queda do custo desses empréstimos e a taxa, que estava em 18,45 por cento no Itaú, deve ir para pouco mais de 14 por cento ao ano.
O presidente da Associação Brasileira de Crédito Imobiliário (Abecip), Décio Tenerello, acredita que rapidamente essa taxa recuará para 12 por cento ou menos, nos financiamentos a imóveis avaliados em até 150 mil reais. Ele reconhece que ainda é caro, mas acredita que o prefixado entrará rapidamente no gosto do brasileiro.
"É mais fácil vender o prefixado, o brasileiro procura o tamanho da prestação que cabe no bolso", afirmou.
MAIS RECURSOS
Outro entrave criado pelo juro alto é a falta de estímulo para a negociação dos créditos imobiliários, o que geraria mais recursos para o financiamento de habitações, como acontece em mercados desenvolvidos.
No Brasil, o Certificado de Recebível Imobiliário (CRI) ainda não é um produto de massa, já que o juro e os prazos ainda são altos demais para custear empreendimentos populares.
"Com taxa de juro real de 8 por cento ao ano, os papéis gerados no mercado imobiliário passarão a concorrer com os que estão aí, como o CDI. Isso começará a gerar o mercado de hipotecas brasileiro", disse Tenerello, da Abecip. "No segundo semestre de 2007 acredito que já esteja nesses patamares."
IPOs
Por enquanto, sem esses ativos de renda fixa girando no mercado, o investidor interessado em embarcar na expectativa de crescimento do setor de construção recorre à bolsa.
Desde setembro do ano passado, cinco empresas fizeram ofertas públicas de ações na Bolsa de Valores de São Paulo: Rossi, Company, Gafisa, Abyara e Cyrela . Esta última fez duas ofertas, uma há cerca de um ano e outra em julho de 2006.
Ao todo, elas levantaram cerca de 4 bilhões de reais, mas o dinheiro não deve financiar produtos de massa.
"São empresas que trabalham no nicho de classe média, média/alta. O nicho de renda mais baixa é onde está o grande mercado", acrescentou Petrucci, do Secovi-SP.
Outras três empresas do setor imobiliário pedem registro à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para lançar ações: Klabin Segall, Brascan Residencial Properties e São Carlos Empreendimentos e Participações.
Fonte: Reuters.com
Data: 15/09/06